Resenha do artigo “Compreendendo o conceito de compaixão na perspectiva dos enfermeiros”

Referência: Ortega-Galán ÁM, et al. Understanding the concept of compassion from the perspectives of nurses. Nurs Ethics. 2021 Sep;28(6):996-1009.

O presente artigo foi escrito por Ortega-Galán, doutora em enfermagem, mestre em Bioética e Humanização da Atenção à Saúde, e seus colaboradores – profissionais do mesmo quilate. Os autores analisaram o conceito de compaixão na literatura científica e na perspectiva de profissionais da enfermagem, tendo em vista que o cuidado compassivo é essencial em um cuidado de excelência.

A importância do artigo deve-se à importância do termo em diferentes áreas do saber, tais com: bioética, enfermagem, pesquisa médica, neurociência, psicologia social, ciências contemplativas, antropologia médica, entre outras. Além disso, o termo muitas vezes é usado de modo equivocado, sobretudo, na saúde. Os autores entendem que a compreensão do termo compaixão pode ajudar na capacitação dos enfermeiros e na sua melhor atuação para com os pacientes. Daí a pergunta: o que os enfermeiros entendem por compaixão?

O artigo está dividido em cinco partes, que serão brevemente apresentados aqui. O trabalho é fruto de uma pesquisa qualitativa realizada com enfermeiros Sistema Público de Saúde de Andaluzia, cidade espanhola, em 2019, cujo objetivo principal foi desenvolver uma teoria para explicar o conceito de ‘compaixão’, após análise do conceito de compaixão na perspectiva dos enfermeiros. Seus resultados nos permitem refletir acerca da nossa percepção (e de nossa equipe) do que é a compaixão e como isso reflete no nosso atendimento aos pacientes.  

Na introdução, os autores discorrem como o cuidado está intrinsicamente relacionado com a enfermagem e que esse cuidado deve estar atrelado à compaixão para que ele possa ser prestado de forma holística. Estudos recentes atribuem aos bons enfermeiros virtudes como responsabilidade, compaixão, honestidade e defesa. Inclusive no Código de Ética do Enfermeiro (na Espanha) inclui a compaixão como valor profissional.

Ortega-Galán et al. destacam a etimologia da palavra compaixão, oriunda da palavra latina cumpassio, onde com significa “com” no sentido de estar junto e, pati que significa sofrer; já no grego pati significa ‘sofrer com’, ‘sofrer junto’, ‘sentir por’.

Os autores explicam que filosoficamente o conceito de compaixão também aparece como algo inerente e inseparável do ser humano, sendo identificado como uma tristeza compartilhada, às vezes equiparada à comiseração, ou ainda, como um ato moral de união e solidariedade. Entretanto, se por um lado, recentemente, a compaixão vem sendo defendida como uma qualidade inerente ao ser humano, que permite ir além do compartilhamento de sofrimento dos outros na tentativa de transformar a realidade em questão, por outro, no campo da saúde mental e da pesquisa, a compaixão é definida como uma sensibilidade ao próprio sofrimento e ao sofrimento dos outros, juntamente com o compromisso de prevenir e aliviar esse sofrimento.

Isso mostra que o significado do termo compaixão tem sido uma preocupação filosófica ao longo da história; embora sua compreensão decorra de ideologias religiosas sem muita clareza no conceito. Na sua pesquisa, Ortega-Galán et al. identificaram que na esfera religiosa (cristianismo, budismo, islamismo) a compaixão é igualmente valorizada, mas também apresentada com certas nuances.

Segundo os autores, “o que está claro é que a compaixão é agora um aspecto fundamental dos cuidados de saúde de alta qualidade.” Registros mostram que a compaixão foi associada à saúde e ao bem-estar emocional dos enfermeiros trouxe benefícios aos usuários e às organizações de saúde, melhorou a adesão terapêutica, reduziu o tempo de recuperação e diminuiu o número de hospitalizações, todos com impacto nos gastos com saúde. Por isso, a relevância de compreender o que a compaixão significa para os enfermeiros, porque essa compreensão fornecerá uma base para programas de treinamento projetados para cultivar a compaixão, objetivando a melhora da qualidade do cuidado.

Quanto ao método, conforme já informado, foi uma pesquisa qualitativa que usou o modelo da teoria fundamentada de Glaser e Strauss (2017). A técnica para coleta de dados foi o grupo focal (total de quatro, com duração de 90 minutos) e entrevistas em profundidade (total de 25, como duração que variou de 45 a 60 minutos), com amostragem por saturação. Os participantes da pesquisa eram profissionais de enfermagem que trabalhavam no Sistema Público de Saúde da Andaluzia (Espanha). O recrutamento foi por meio da técnica de bola de neve.

A análise dos dados teve a ajuda do ATLAS.Ti e do CAQDAS (software de análise de dados qualitativos assistido por computador).

Os resultados mostram que dos 68 participantes a maioria era do gênero feminino, com idade acima de 50 anos, trabalhavam em hospital, tinham emprego fixo e entre duas e três décadas de experiência.

Para responder à pergunta O que significa compaixão para os enfermeiros? as respostas foram organizadas em quatro categorias principais:

1. Percepção negativa do termo compaixão: termo relacionado a sentimentos de mágoa ou piedade, bem como à cultura religiosa, que gera uma expressão de rejeição. Nesse quesito, a compaixão foi entendida como: i) piedade pelo sofrimento dos outros; ii) como expressão religiosa; iii) O fardo do sofrimento para e com os outros.

Trechos da entrevista:

Sim, essa é a definição agora. Entendo compaixão como sentir pena de alguém: ‘Ah, coitado, tenho pena de você!’ (IDI 15:5)

A sensação que você tem quando alguém te fala ‘compaixão’ é ‘do que você está falando?’ Parece um conceito de um curso de religião…algo que não é profissional, que está mais ligado às suas crenças e seus valores como indivíduo que não tem quase nada a ver com profissionalismo. (IDI 6:3)

Poder se colocar no lugar deles e ser, ao mesmo tempo, capaz de sofrer com eles e se colocar no lugar deles, enfim. (IDI 29:5)

2. Compaixão e empatia como sinônimos: esses dois termos, embora sejam conceitualmente diferentes, foram identificados na maioria dos discursos, nas duas técnicas utilizadas. Isso mostra a dificuldade que a maioria dos enfermeiros tinha em conceituar compaixão e diferenciar da empatia. Nesse eixo temático, a compaixão foi entendida como: i) Colocar-se no lugar do paciente; e ii) Compreender as experiências dos outros.

Trechos da entrevista:

… que termo difícil; para mim, compaixão… a palavra empatia me vem à mente; talvez eu não saiba definir a compaixão como tal, mas a empatia me vem à mente. (IDI 21:1)

Então, eu sempre procuro pensar: vamos ver, esse paciente tem essa [doença], e essa é a situação da família dele, o que eu faria? Sim, é assim que eu pensaria. Ele é mais exigente? Sim, mas por quê? Então, eu sempre procuro analisar o que tem levado o paciente a reagir assim. (IDI 11:3)

3. Além da empatia: alguns enfermeiros perceberam a compaixão como mais do que apenas empatia, agregando atributos ao conceito como outras categorias, como: i) sendo presente; ii) vulnerabilidade compartilhada; e iii) o desejo de aliviar o sofrimento.

Trechos da entrevista:

No entanto, entendo compaixão como presença, como companhia, como estar com alguém através do que provavelmente é uma experiência de vida importante para eles e quando eles provavelmente estão procurando algo mais do que conselhos, uma técnica ou um tratamento; eles estão procurando alguém para estar presente com eles, é uma abertura espiritual. (IDI 20:7)

Certificando-me de permanecer na realidade todos os dias e sabendo que sou uma pessoa que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento, e vê-los, ouvir o que os outros dizem e [saber que] pode acontecer comigo. (IDI 19:15)

Para mim, a compaixão é ajudar, é diminuir um pouco o sofrimento, aliviar, estar ali. (IDI 32:2)

4. Os efeitos de ter uma atitude compassiva nos profissionais: alguns profissionais relataram sentir-se sortudos por terem a possibilidade de estar em contato com pessoas que sofrem. Para eles, isso é um grande aprendizado e satisfação, que essa característica deveria estar presente em todos os profissionais de enfermagem.

Trechos da entrevista:

Claro que, para mim, compaixão é reconhecer o sofrimento do outro e poder ajudá-lo, não é? Algo assim… É uma coisa linda e uma característica que nós enfermeiros temos ou deveríamos ter. (IDI 17:8)

Uma forma de viver a compaixão, a meu ver, está no meu trabalho… é como eu me relaciono com os outros… Estou tentando ser feliz; é muito fácil se você pensar mais nos outros do que em si mesmo. (IDI 22:1)

Na discussão, os autores relatam que apesar de o conceito “compaixão” ser considerado um ideal comportamental nas profissões de saúde, os resultados mostraram formas diferentes e até contraditórias de percebê-la. Eles explicam que a dificuldade em conceituar a compaixão sofre influências da cultura, o que justifica tanto a confusão, desconhecimento e rejeição do termo nos discursos dos participantes da pesquisa, quanto a avaliação muito positiva do desenvolvimento e implementação da compaixão na prática assistencial. No contexto sociocultural em questão, a compaixão foi vista de forma negativa pela maioria dos participantes.

Ortega-Galán et al. citam um estudo canadense com profissionais de saúde e um estudo internacional com enfermeiras sobre percepção da compaixão, ambos mostraram fragilidade na percepção da compaixão e no conceito, mas os autores não entraram em detalhes sobre esses estudos.

Outro destaque foi a confusão de os enfermeiros participantes da pesquisa fizeram entre os termos compaixão e empatia. Os autores lembram que a literatura, no entanto, distingue claramente os dois, tanto em seu significado quanto nos efeitos que podem ter para os profissionais ao desenvolvê-los.

Um achado interessante é que a compaixão estava relacionada ao desejo de aliviar o sofrimento dos pacientes apenas para uma minoria dos profissionais de enfermagem que participaram da pesquisa. Para esses poucos, tal experiência incorpora atributos de satisfação e de felicidade. Ortega-Galán et al. Informam que a literatura disponível sugere que a compaixão, quando exercida em condições adequadas, é benéfica tanto para os profissionais quanto para os pacientes; mas que eles não encontraram estudos qualitativos do ponto de vista dos profissionais que contemplassem esse aspecto positivo. Então, os autores criticam essa lacuna na ciência que prejudica a motivação e a capacitação enfermeiros em relação à compaixão. Por isso, os resultados desta pesquisa sugerem que é necessário trabalhar a mudança do repertório conceitual e simbólico dos profissionais sobre a compaixão em nosso meio.

Finalizando a discussão, os autores concordam que uma as limitações da pesquisa foi a ausência de dados relativos às questões culturais e religiosas. Apontam, também, que o ponto forte foi o desenvolvimento de uma estrutura conceitual para programas de treinamento para cultivar a compaixão entre os enfermeiros.  Dessa forma, eles concluem afirmando que “esses níveis de conceituação do fenômeno em nosso contexto indicam que as intervenções são necessárias antes que a compaixão possa ser cultivada. Essas intervenções facilitariam uma mudança na compreensão da compaixão pelos profissionais de saúde, além de nutrir a motivação para o treinamento em cuidado compassivo.”

Apresento algumas considerações enquanto profissional de saúde e interessada na temática, em especial por ser tratar de pesquisa qualitativa. O estudo é bem interessante e seus resultados nos trazem muitas reflexões. Acho importante enfatizar que a pesquisa qualitativa não tem a intenção de explicar o fenômeno, mas de compreendê-lo.

Destaco ainda que, embora a pesquisa tenha sido direcionada a um grupo específico de enfermeiros espanhóis, seus resultados não devem ser muito diferentes dos nosso, pelo menos na minha prática clínica. O erro conceitual de termos, não é um detalhe, pois na prática pode interferir de maneira significativa no comportamento das pessoas (incluindo os profissionais de saúde) e, consequentemente, na execução das suas práticas e atitudes. No entanto, não acredito que a compaixão possa ser treinada de forma mecanizada em oficinas ou workshop. Conforme citado no texto, “Sinclair define compaixão como a sensibilidade exibida para compreender o sofrimento de outra pessoa, juntamente com a vontade de ajudar e promover o bem-estar dessa pessoa, a fim de aliviá-la desse sofrimento”. Penso que essa sensibilidade só pode ser desenvolvida em pessoas/profissionais que realmente entendem o valor do outro. Isso vale para qualquer profissional.

Espero que esse texto possa, em alguma medida, mobilizar nossos valores enquanto profissionais de saúde de um sistema de saúde tão carente de virtudes; entre elas a compaixão. Parafraseando os autores, deixo a provocação com a pergunta: O que você, profissional de saúde, entende por compaixão?

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