Outubro rosa – Assistência nutricional no câncer de mama: desafios e oportunidades

Todos os anos, o mês de outubro dedica-se a pensar no câncer de mama, despertando a consciência das pessoas de todas as idades sobre a prevenção, o diagnóstico precoce e os tratamentos.

O câncer de mama é um dos tipos de câncer que mais acomete as mulheres no mundo e no Brasil. A estimativa do Ministério da Saúde para o triênio 2020-2022 está em torno de 66.280 casos novos de câncer de mama para cada ano do triênio, independentemente do fator socioeconômico (INCA 2019).

O câncer de mama, assim como a maiorias dos outros tipos, é uma doença multifatorial e complexa, isso significa que não existe uma causa única nem pode ser tratado exclusivamente com uma medida terapêutica, pois seu impacto não atinge apenas o corpo biológico; ao contrário, afeta o emocional, o social, o espiritual. Suas marcas podem ser maiores que as cicatrizes, afetando profundamente na alma das mulheres, o principal grupo afetado (câncer de mama também pode ocorrer em homens, embora mais raro).

O que a assistência nutricional tem a ver com tudo isso? Muita coisas. Não raro, mulheres são vítimas de informações desqualificadas e até mesmo mentirosas por profissionais de saúde, de diferentes áreas, recomendando dietas milagrosas na prevenção e até mesmo durante os tratamentos do câncer de mama. Informações, contraproducentes, sem nenhuma evidência, totalmente desconexas com as diretrizes internacionais prejudicam os pacientes com câncer, impedindo que se alimentem de forma regular e adequada (Rauh et al., 2018).

A assistência nutricional é mais que uma consulta, é uma abordagem ampliada que engloba avaliação, intervenção, monitoramento e planejamento centrados na pessoa; respeitando os hábitos alimentares (e de vida), as condições de saúde física e emocional, bem como as condições socioculturais e financeiras. Por isso, não cabe associar assistência nutricional com dieta, visto que as dietas, em especial as radicais, atropelam a vontade, o bem-estar, a qualidade de vida das pessoas. Sobretudo nas situações de prevenção e tratamento de câncer.

Um dos desafios da assistência nutricional no câncer de mama refere-se à incorporação de uma abordagem que ao mesmo tempo é baseada em evidências e humanizada. Se por um lado é superimportante respaldar as orientações e intervenções nutricionais com argumentos científicos; por outro, faz-se necessário saber utilizar as palavras certas da maneira certa para não constranger, impor regras, desaminar, amedrontar ou inibir as pacientes, que na maioria das vezes estão fragilizadas com o diagnóstico.

Muito embora a maioria dos cânceres, inclusive o de mama, está relacionado como estilo de vida das pessoas, por exemplo, alimentação pobre em vegetais e rica em alimentos ultraprocessados (infográfico_INCA 2018), consumo de álcool, falta de atividade física; quem trabalha na área da saúde sabe (ou deveria saber) que mudança de comportamento é um processo lento que envolve muito mais que a “imposição” do profissional e vontade da pessoa. Hábitos arraigados, ritmo de vida e trabalho, medicamentos e vários outros fatores podem influenciar negativamente no estilo de vida e, consequentemente na mudança deles.

Outro desafio, diz respeito à detecção da desnutrição de pacientes em tratamento do câncer. Muitas vezes, por desinformação, as mulheres começam a fazer dietas restritivas (Dietas restritivas_INCA 2018), e perdem peso durante o tratamento de quimioterapia e radioterapia, o que não é bom. Esses tratamentos, por si só, provocam perda de massa muscular, que associada às dietas restritivas e aos efeitos adversos, como náusea, vômito, paladar alterado, entre outros, podem levar essas mulheres à desnutrição.

Aqui existem dois perigos, o primeiro é a própria desnutrição que prejudica a resposta imunológica, a cicatrização de feridas (no caso de cirurgia e radioterapia), aumenta a vulnerabilidade para infeções oportunistas, compromete a capacidade funcional, podendo afetar o humor e a atividade sexual, comprometendo a qualidade de vida. O outro perigo, é que muitas dessas mulheres estavam com excesso de peso quando tiveram o diagnóstico e por isso banalizam a perda de peso, nesse caso o mais grave é que muitos profissionais de saúde também ficam ficados no excesso de peso e esquecem que a perda de peso durante o tratamento perigoso.

Após essas informações e reflexões, fica aqui o convite para fazermos das consultas um momento de acolhimento, de informações e orientações humanizadas e baseadas em evidências científicas. Cuidar é muito mais que tratar. Que a assistência nutricional seja mais uma forma de cuidado e não apenas um tratamento. Essa é a oportunidade de fazer a diferença na vida de todas as mulheres que precisam ser cuidadas e bem orientadas num momento tão delicado da sua vida.

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Bibliografia consultada

Muscaritoli et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clinical Nutrition, 2021; 20: 2898-2913.

Rauh S, Antonuzzo A, Bossi P, et al. Nutrition in patients with cancer: a new area for medical oncologists? A practising oncologist’s interdisciplinary position paper. ESMO Open. 2018; 3(4): e000345.

Demétrio F, Paiva JB, Fróes AAG, Freitas MCS, Santos LAS. A nutrição clínica ampliada e a humanização da relação nutricionista-paciente: contribuições para reflexão. Rev Nutr Campinas 2011; 24:743-63.

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